Direcionamento folicular é chave para eficácia e segurança de tratamentos tópicos, aponta estudo da UnB

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(Foto: Beyzanur K./Pexels)

Pesquisa detalha técnicas para avaliar como nanopartículas podem entregar medicamentos diretamente aos folículos pilosos de forma mais precisa e segura.

Quem nunca pensou: “Como o medicamento sabe onde agir?”. E a verdade é que o medicamento não sabe de antemão a resposta, afinal, ele não pensa. Para funcionar, ele necessita encontrar o seu receptor específico no corpo, para então interagir com ele e desencadear uma ação. Em outras palavras, quando um medicamento é ingerido, ele pode agir no corpo inteiro, basta que encontre o alvo certo, por isso se fala em efeito sistêmico.

Isso está diretamente relacionado à eficácia e à segurança de tratamentos medicamentosos. Se o medicamento encontra o receptor certo no local certo, maiores as chances de um desfecho favorável. Agora se o medicamento é capaz de interagir com receptores menos específicos ou que em diferentes locais desencadeiem respostas diferentes da desejada, as chances de efeitos adversos aumentam significativamente. Uma conclusão lógica é que tratamentos locais, capazes de restringir a absorção sistêmica, tendem a ser mais seguros.

Com tratamentos tópicos para doenças capilares não é diferente, sua eficácia e segurança dependem, em grande parte, da capacidade de direcionar os medicamentos exatamente aos folículos pilosos — estruturas profundas da pele onde se originam os pelos, onde ocorrem muitos processos inflamatórios e, principalmente, onde os alvos terapêuticos para o tratamento da alopecia androgenética são encontrados. Esse direcionamento folicular é essencial não apenas para potencializar o efeito terapêutico, mas também para reduzir a absorção sistêmica do fármaco e prevenir efeitos adversos indesejados.

Uma forma de direcionar ativos para os folículos pilosos é através da nanotecnologia. No entanto, a ausência de métodos padronizados para avaliar essa entrega ainda dificulta o desenvolvimento de produtos verdadeiramente eficazes e comparáveis entre si. Afinal, a mera aplicação de nanopartículas não garante que o medicamento está sendo direcionado para os folículos e muito menos que ficará retido nessas estruturas por um período desejável. É preciso confirmar tais aspectos por meio de métodos validados e padronizados.

Diante desse desafio, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) reuniram e analisaram os principais métodos utilizados para mensurar a penetração de nanopartículas nos folículos pilosos. Publicado na revista Pharmaceutics em julho de 2023, o estudo Methodologies to Evaluate the Hair Follicle-Targeted Drug Delivery Provided by Nanoparticles” foi conduzido por Maíra N. Pereira e colaboradores do Laboratório de Tecnologia de Medicamentos, Alimentos e Cosméticos (LTMAC), da Faculdade  de Ciências da Saúde da UnB.

A equipe avaliou diferentes abordagens experimentais — como o uso de pele humana, suína e de roedores — e diferentes técnicas como tape stripping diferencial, oclusão folicular, biópsias com punch e métodos de imagem, como a microscopia confocal. Também foram analisados fatores como o tamanho, a carga e a composição das nanopartículas, e como essas variáveis influenciam o desempenho na entrega folicular.

Principais descobertas e implicações clínicas

Entre os principais achados, destaca-se o uso da pele de orelha suína como o modelo in vitro mais próximo da pele humana para esse tipo de estudo, superando inclusive a pele humana, que tende a contrair os poros evitando a penetração da formulação após a remoção da pele do doador. Já a técnica de stripping diferencial, que consiste na remoção das camadas da pele por meio da sucessiva aplicação de fitas adesivas, combinada à extração por cianoacrilato (cola instantânea), mostrou-se especialmente eficaz para quantificar a deposição de medicamentos especificamente nos folículos.

Outro destaque é a proposta do índice de direcionamento folicular, uma métrica que permite avaliar a quantidade de fármaco entregue aos folículos com o total absorvido pelas diversas camadas da pele. Esse índice permite comparações mais rigorosas entre formulações e orienta o desenvolvimento de produtos que sejam ao mesmo tempo eficazes e seguros.

Conexão com o mundo real

Para os pesquisadores, investir em metodologias de avaliação robustas é essencial para acelerar a transição de formulações experimentais para produtos disponíveis no mercado. Quando o princípio ativo é entregue de forma precisa aos folículos, é possível aumentar sua eficácia terapêutica com menor dosagem e menor risco de efeitos colaterais, especialmente em doenças inflamatórias crônicas ou quadros de queda capilar.

“Para explorar todo o potencial da nanotecnologia nos tratamentos tópicos, é fundamental padronizar os métodos de avaliação da penetração folicular”, afirma Guilherme Gelfuso, pesquisador sênior do LTMAC e coautor do estudo.

A expectativa é que os protocolos sistematizados apresentados no artigo contribuam para tornar mais eficazes e seguras as futuras terapias tópicas voltadas aos folículos pilosos — com benefícios reais para pacientes e avanços significativos na dermatologia.

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