Pesquisadores da brasileiros e americanos analisam avanços no uso de nanocarreadores para aplicação tópica de medicamentos e direcionamento para os folículos capilares
Sempre que se menciona nanotecnologia, muitos já imaginam que uma melhor eficácia é esperada porque as partículas são pequenas e, portanto, penetram muito mais os tecidos. De fato, uma revisão científica realizada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) em parceria com a associação HairDAO, dos Estados Unidos, aponta que sistemas nanotecnológicos aplicados na pele podem melhorar significativamente o tratamento da alopecia androgenética, conhecida popularmente como calvície. Mas a explicação vai muito além do tamanho. O que importa neste caso não é penetrar mais, e sim “segurar” mais fármaco nos folículos.
A alopecia androgenética é uma doença multifatorial que atinge milhões de pessoas em todo o mundo, com impactos psicológicos significativos. As opções de tratamentos aprovadas até o momento pela FDA (Agência Reguladora Norte-americana) envolvem o uso tópico de minoxidil ou a administração oral de finasterida. No entanto, ambos os medicamentos apresentam limitações: o minoxidil tem baixa solubilidade e pode causar irritações na pele, enquanto a finasterida, ao ser absorvida sistemicamente, está associada a efeitos adversos severos, como disfunção erétil em homens.
Ora, se há um medicamento aprovado para uso oral, com efeitos comprovados, não bastaria colocar esse princípio ativo em uma loção e aplicar na pele de forma tópica?
Um problema muito comum que limita este tipo de abordagem é baixa penetração das moléculas. A pele é um órgão de proteção do organismo, e uma barreira muito eficiente à entrada de substâncias de maneira geral. Apenas uma pequena quantidade do que é aplicado sobre a pele de fato penetra. A primeira questão fundamental é se essa pequena quantidade que penetra é suficiente para exercer um efeito terapêutico. No caso específico a finasterida, a resposta é sim. A finasterida é uma molécula que penetra bem a pele, suficiente para exercer o efeito terapêutico e, dependendo da formulação, suficiente para exercer os efeitos adversos também.
Uma estratégia que vem sendo desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Tecnologia de Medicamentos, Alimentos e Cosméticos (LTMAC) da Universidade de Brasília (UnB) é o uso de estruturas em escala nanométrica projetadas para otimizar a entrega de fármacos, com liberação direcionada nos folículos pilosos.
Neste caso, a vantagem crucial da tecnologia é direcionar o fármaco para os folículos pilosos, onde os alvos de ação se encontram. Quanto mais direcionada for a aplicação, menores as chances de absorção do princípio ativo por outros tecidos e, dessa forma, menor a chance de efeitos adversos.
Os sistemas nanoestruturados são portanto desenvolvidos para penetrarem os folículos pilosos e controlarem a liberação, “segurando” a molécula e irem se desfazendo e liberando lentamente, de maneira que não haja grande penetração em outras estruturas da pele e que a molécula não chegue em concentrações relevantes na corrente sanguínea.
No artigo, a equipe destaca a importância do uso do índice de direcionamento folicular (follicular targeting index) como métrica padronizada para avaliar a capacidade de um nanocarreador alcançar os folículos. Esse índice varia de 0 a 1, 0 indicando que nenhuma porção do fármaco aplicado se encontra nos folículos pilosos e 1 indicando que 100% do fármaco que penetrou a pele se encontra nessas estruturas. Certamente, em um cenário clínico é esperado um índice de direcionamento folicular intermediário; no entanto, quanto mais próximo de 1, menor a chance de efeitos adversos. Além disso, valores mais altos desse índice podem indicar a formação de um reservatório de fármaco nos folículos pilosos e, dessa forma, uma formulação com ação prolongada.
Portanto, o uso desse índice, somado à quantificação precisa do fármaco nas diferentes camadas cutâneas, permitiria validar com mais segurança qual formulação estaria mais propensa a ter um maior efeito local, sem efeitos adversos.
Esse direcionamento só é conseguido dessa maneira porque as nanopartículas são muito grandes para penetrarem o estrato córneo, que é a camada mais externa da epiderme e principal barreira. Parece contraditório mas é isso mesmo. Uma nanopartícula de cerca de 300 nm é muito maior que uma única molécula de fármaco. Portanto a maior parte das partículas não penetram a pene mas se acumulam naturalmente no folículos pilosos, nos quais há uma invaginação do estrato córneo que acumula essas partículas.
Os resultados de diversos estudos revisados demonstram que os nanocarreadores, como lipossomas, nanopartículas poliméricas e nanoemulsões, têm alto potencial de se acumular nos folículos e, com isso, aumentar a eficácia dos tratamentos. No entanto, os pesquisadores alertam que muitos trabalhos ainda apresentam deficiências metodológicas importantes: grande parte não utiliza controles adequados, não quantifica o acúmulo do fármaco em todas as camadas da pele e negligencia a análise direta nos folículos, dificultando a comparação entre formulações.
Caminhos para o futuro
A revisão conclui que os avanços são animadores, mas ainda preliminares. Os autores defendem que estudos futuros devem incluir uma gama maior de tamanhos de nanocarreadores, utilizar modelos de pele adequados e realizar testes clínicos que avaliem a segurança e eficácia das formulações desenvolvidas. Só assim será possível traduzir o potencial observado em laboratório para soluções reais e seguras nas prateleiras das farmácias.
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